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Caldas da Rainha e a semana da mobilidade

Nunca será tarde, agora mais do que oportuno, mas não só, porque decorre a Semana Europeia da Mobilidade que se repete desde 2002. Sim, já há 20 anos que andamos a gastar dinheiro dos contribuintes na realização de acções de consciencialização que levem a alterações de comportamentos por forma a utilizar menos aquele que é um dos primeiros responsáveis pela poluição e obesidade. O automóvel. Mas mais do que isso, esperar-se dos políticos estratégias urbanas assentes num planeamento sustentado que permita a devolução aos cidadãos dos espaços públicos.

Claro que esta semana quer-se marginal a alterações e desenvolvimentos urbanos focado nas pessoas, esses sim politicamente úteis. Na sua mobilidade, no seu bem-estar, no regresso ao uso e fruição de zonas verdes e pedonais pensados na felicidade daqueles que utilizam as pernas ou outro meio de deslocação verde.

Ontem à noite, como tantas outras vezes, dei uma volta a pé pela cidade. Daquelas voltas largas sem me cingir apenas à Rua das Montras, à Praça da República ou ao Parque D.Carlos I onde me ficou uma vida nocturna que convidava à socialização nos diferentes espaços abertos que por ali existiam. Como sabemos tudo isso desapareceu e deu lugar a uma cidade escura e morta depois do pôr do sol.

Ao subir a Av. Engº Luis Paiva Sousa, que para melhor visualização junto algumas fotografias tiradas no dia seguinte, percebi que a percentagem de via dedicada aos transeuntes da mobilidade sustentável é aquele passeio de um metro, entre as duas faixas de rodagem, decorado ao inicio com caixotes da reciclagem de serviço à multinacional, no qual é desaconselhável a duas pessoas conversarem lado a lado, que, para além da reduzida largura, torna-o ainda mais estreito os estacionamentos que por interesse mercantilista (só pode) foram colocados transversalmente. 





Toda esta anormalidade num plano urbanístico recente pode ser confirmada pelo extenso parque de estacionamento do McDonald's, quase sempre vazio nas vezes que por ali passo, que excede certamente em metros quadrados a área total da zona dedicada aos peões o que, ironicamente, só poderá ser explicado pelo alinhamento das politicas da actual Câmara com as preocupações sustentáveis de exercício físico aliado a uma boa alimentação. 

Já para não falar no novo Parque Tecnológico que, aparentemente, seguirá o mesmo ordenamento face a uma área sem possibilidade de alargamento e de estacionamentos dedicados. Num simples exercício de humildade bastava visitar qualquer primeira vila depois da fronteira para vermos onde os nossos "arqui-inimigos" espanhóis, que estão anos luz à nossa frente em termos de politicas urbanas e de ordenamento do território, autorizam este tipo de projectos empresariais.  

Numa altura em que se pede maior consciencialização ambiental, diminuição da circulação rodoviária e consequente devolução de partes urbanas aos cidadãos para que possam delas usufruir em pleno não se pode aceitar projectos alheados desta realidade e que conservam sensibilidades a outro tipo de interesses políticos.

Para um cidadão que vive fora da cidade, entre Salir de Matos e Coto como é o meu caso, face a este exemplo e a outros que temos assistido na cidade, só pode fazer parte das preocupações utópicas a utilização de corredores pedonais (não me refiro a ciclovias ou baloiços panorâmicos) para quem queira, ou necessite, deslocar-se a pé até à cidade. Pessoas que cada vez são em maior numero e que correm riscos de vida em zonas onde nem sequer bermas existem.

Aliás, na perspectiva de um agravamento das condições sociais, como se espera num futuro próximo, justificaria até o alargamento da rede TOMA mas isso estará ainda na zona dos sonhos.

Uma nota final optimista. Depois de assistir ao alargamento do passeio numa zona já por si de difícil mobilidade, sou surpreendido com a colocação de um bloco de cimento mesmo ao meio do arranjo a anunciar o inicio do Bairro da Ponte,  cujo impacto na vida das pessoas que por ali passam diariamente é nulo. Mas num pensamento premonitório talvez seja mesmo uma lápide a anunciar o fim de ciclo.




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