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Mensagens

O Alentejo

  O Alentejo tresanda a porco preto Pedi migas com espargos e o empregado, sem dar importância ao meu olhar perguntou: e acompanham o quê? lagartos, abanicos, plumas ou secretos? disparou. Esforcei-me para perceber porque a cegonha branca volta sempre. Umas postinhas de cação fritas seria bom. - Não temos! O Alentejo está a substituir o ecossistema gastronómico. Trocou a sericaia, a encharcada e o pão de rala pelo pudim, cheesecake e bolo de bolacha. As cores do montado estão a ser substituídas pelo verde intensivo da azeitona. Espero que a cegonha nunca chegue a perceber o que é o desencanto.

A Serra

Se em algum dia conseguir expressar o que sinto nestes lugares posso morrer sem medos. Tento-o sempre baixinho não vá a morte resgatar-me à felicidade. A serra tem estes desfechos até em lugares onde a luz do sol tem medo de entrar. Na aldeia onde reza ser a primeira com iluminações de natal led, o caldo verde fez jus à couve serrana em final de caminho, num pequeno espaço quadrado que o xisto comprimia. A um dos cantos uma jovem quase bem-parecida tirava selfies sem profundi dade como se o mundo fosse acabar de seguida. Depois de tudo, pensei, só pode ser uma manifestação do vazio, prenúncio do resgate da morte. Interrompi a apneia quando reparei na frase do pacote de açúcar, que acompanhava o café, colocado estrategicamente à minha frente, que profetizava: “O canhão da Nazaré está pronto a disparar”.

Deus

Ensinaram-nos que houve um outro que morreu para expiar as nossas falhas. A partir daí vivemos na culpa do medo de ter que ser à sua imagem. O logro atrofia, esvazia-nos da aceitação e carrega-nos para o castigo de uma consciência atormentada. Gostava de compreender este retrocesso que limita as nossas escolhas e teimamos em não questionar. Hoje perguntaram-me quais os desejos para 2019. Apenas um, livrar-me da propiciação que resta.

Pobreza

"Todos estes alimentos são para os pobrezinhos" - ouvi dizer. A palavra "pobre" desliga-nos dos diminuídos pelo afecto. Crenças que se manipulam logo depois de nascermos.  E é diferente se o destino nos empurra para o berço das oportunidades, porque temos sempre quem nos dê uma segunda e isso superioriza-nos, reforça-nos. Pobreza é nos excluirmos de não aprender uma coisa nova por dia, de não aceitar que, no final, todos regressamos nus. Pobreza é sermos cegos na percepção. É não distinguir as cores. Pobreza é julgar o outro.

PR7TV - Caminhada pela região de vinhos do Oeste

Pequena rota do concelho de Torres Vedras, situada em plane região vinícola do oeste, com a denominação de Rota das Quintas porque passa por diversas quintas agrícolas. Feita no início de Outubro, este ano, em plena campanha das vindimas. Maioritariamente feita por estradão, apresenta alguns troços de alcatrão e trilho de ervas altas (secas nesta altura). Zona de extensa vinha, brinda-nos também com outros tipos de fruta como amoras, maçãs, peras, excelentes figos, marmelos e nozes, sendo por isso esta a melhor altura do ano para a percorrer permitindo a recolha de exemplares. Com um início de outono mais quente do que o normal, o percurso obrigou a algumas paragens em sombras a jeito e à batota de um atalho que o encurtou em dois quilómetros. A saída fez-se junto à Igreja de S. Domingos de Carmões. No sentido ao dos ponteiros do relógio fomos descendo direito ao Braçal, onde se começa a ver as encostas vinhateiras da região. Algumas amoras e figos da índia marc...

A vida transforma-nos mas não na totalidade

A vida transforma-nos mas não na totalidade. Ontem os meus olhos humedeceram-se e as lágrimas trouxeram as mesmas emoções e imagens que vivi em 22/07/1994. O primeiro gira-discos, a janela de luzes psicadélicas que iluminavam o quarto nas noites escuras, a capa do “Animals”, as letras passadas à máquina de fita pelo João que serviam depois á conversa entre nós em modo progressivo e experimental. A música sempre transformou a minha vida. Aparece quando estou alegre, quando tenho saudades, melancólico, desperto, curioso. Quando tenho tempo. "Se não ouvisses música enquanto estudas tinhas melhores notas" - dizia a minha mãe. Vezes sem conta. Algumas gosto,   outras passam de largo, a outras volto, outras descubro. Mas há aquelas que sempre me despertam os sentidos, me apontaram quem fui e sou. Os Pink Floyd são os únicos que não deixaram que a transformação fosse na totalidade. A que regresso para me amparar. Ontem o Roger Waters permitiu-me isso tudo. Nunca a c...

Manifestações de igualdade de género

Há uma frase de Nietzsche que gosto particularmente – “a criança que somos não envelhece nem nunca morre no nosso inconsciente”. Confesso que tenho uma dose qb de machismo dentro de mim. Afinal nasci em 62 bolas!! Há-de envelhecer e morrer comigo. Conscientemente, acredito (e esforço-me por agir) que a igualdade de género é um comportamento que a todos enriquece (Maio de 68 em mim?). Como a religião. Ainda que a existência d’Ele pré-exista, acredito (e esforço-me por agir) que  se pode viver na felicidade sem a sua ubiquidade (obrigado Dawkins). É por isso que movimentos como “Me Too” ou as tshirts que os modelos do Nuno Gama passaram na Moda Lisboa parecem-me cair na patetice, não passando de manifestações dionisíacas (sem o verdadeiro sentido de criação de algo novo). – “existiriam se não houvesse redes sociais?”. Já às dúvidas de linguística (sintaxe) lembro-me sempre do artigo do RAP “Quem fala assim não é  gago”.